Água, Meio Ambiente e Saúde

Fonte: Ewerton de Oliveira Pires - www.ecoterrabrasil.com.br


Introdução

Atualmente, muito se fala em qualidade de vida. Tal discussão perpassa desde a mídia de massa até as pesquisas científicas, passando pelo ensino oficial. Diversos são os fatores abarcados por essa perspectiva. A boa habitação, ou ao menos digna, o direito ao emprego, ao lazer, etc. Porém, não há dúvidas de que nesse contexto de busca de qualidade de vida, o fator preponderante é a saúde, o direito à uma vida saudável e o acesso à medicina, quando necessário. Quando destaca-se o assunto boa saúde, logo pensa-se em ausência de doenças, o que rapidamente remete a tentar evitar o contato com os agentes transmissores de enfermidades, como insetos, animais, bactérias, vírus, fungos. Porém, ao menos no nível do senso comum, poucas preocupações se direcionam sobre as influências do ambiente sobre a saúde humana. Diversas são as interações entre o meio ambiente e o homem, o que certamente reflete-se na saúde. Basta considerar que os elementos básicos à nossa sobrevivência nada mais são do que o meio ambiente adaptado ao nosso consumo, como a água e os alimentos, bem como o ar, o qual deveria ser consumido por nós livre de interferência humana, inalterado em suas características naturais.

Com o desenvolvimento industrial, assinalam-se inúmeras alterações no quadro ambiental, sendo que é grande o contexto de degradação da água, do ar, dos solos, o que se reflete em doenças à população, sobretudo à de baixa renda, à qual não têm acesso à locais privilegiados de moradia, nem à produtos de alta qualidade, com menores possibilidades de contaminações. Porém, existem interferências negativas do meio ambiente sobre a saúde que ocorrem em decorrência de características naturais, independendo da ação antrópica (também denominada tecnogenética). Várias são as ciências que buscam, cada uma sob seu foco específico, compreender tais questões. Entretanto, pela complexidade do tema, a saída mais eficaz está em ações coordenadas entre as áreas de conhecimento, buscando na interdisciplinaridade as soluções, o que trará grandes benefícios às populações. Dessa forma, o presente trabalho pretende em um primeiro momento trazer uma revisão bibliográfica acerca dos temas saúde e meio ambiente, tendo a água como elo de ligação entre ambos. Em um segundo momento, traremos o caso do município de Itambaracá-PR, o qual se situa em área de anomalias geoquímicas relacionadas à problemas de saúde coletiva na região (PINESE et al., 2002).


Concepções e conceitos sobre a saúde

Os estudos da evolução histórica de um determinado campo de conhecimento permite uma melhor compreensão das questões à ele correlatas, contribuindo para o desenvolvimento de um senso de análise mais crítico. Desta forma, antes de iniciarmos a discussão acerca das inter-relações entre o meio ambiente e a saúde, tendo como interseção, nesse caso, a água, nos ocuparemos a traçar um sucinto panorama das diferentes concepções e conceitos sobre a saúde. Desde os primórdios da humanidade, podemos imaginar que a pergunta "o que é ter saúde" habitava no imaginário das pessoas. A princípio, quando os homens viviam em pequenos grupos e eram nômades, ao ocorrer a escassez de determinado elemento, como comida, água ou abrigo, deslocavam-se para garantir a sobrevivência. Como demonstram Gutierrez e Oberdiek (2001), o que acontecia com os seres humanos era até então explicado do ponto de vista mágico, religioso e sobrenatural. Assim, a chegada do outono ou inverno que trazia a falta de determinados frutos ou caça, ou pesca, era atribuída aos deuses que sopravam o vento frio, causador da falta destes elementos, porque estavam irados por determinados comportamentos ou atitudes dos homens. Caso alguém morresse de frio, por falta de alimento ou por doença, essa era a vontade desses deuses que se cumpria (GUTIERREZ e OBERDIEK, 2001, p. 1-2).

Com o passar do tempo o homem foi se distribuindo espacialmente, se diversificando e se especializando, o que lhes permitiu o domínio de técnicas, ainda que rudimentares de cultivo da terra, possibilitando a sua fixação territorial, bem como a criação e disseminação de distintas culturas e tradições para lidar com a questão da saúde. Cerca de 3000 a.C., conforme Gutierrez e Oberdiek (2001), Egito, Índia e China estruturaram sistemas teóricos empiristas para tratar a questão da saúde, fundamentados em complexas filosofias, relegando-se ao segundo plano os elementos mágico-religiosos. Assim, a saúde é vista como um estado de isonomia, ou seja, de harmonia perfeita entre os quatro elementos que compõem o corpo humano: terra, ar, água e fogo. A doença aparece como consequência da ação de fatores externos que provocam, no organismo, uma disonomia entre os elementos (GUTIERREZ e OBERDIEK, 2001, p. 04)

Entre os séculos VI e IV a.C., viu-se emergir a civilização que mais nos influenciaria: trata-se da Grécia, que teve sua cultura difundida por todo o Ocidente pelo Império Romano. Os gregos, de acordo com os já citados autores, concluem que a observação empírica, como a importância do ambiente, a sazonalidade, o trabalho, a posição social do indivíduo, dentre outros, são entendidos como fundamentais para o surgimento das doenças (GUTIERREZ e OBERDIEK, 2001, p. 04).

A partir dessa visão, destaca-se Hipócrates como seu grande expoente, o qual é considerado o "pai" da Medicina Moderna. A linha hipocrática buscava valorizar mais o prognóstico, sendo as doenças vistas dentro do quadro de cada indivíduo. Ressalta-se que a ênfase é dada no prognóstico, como é o modelo clássico da medicina ocidental. Na Idade Média, houve uma espécie de regressão no pensamento acerca da saúde, já que a ocorrência das doenças tinham basicamente, duas interpretações: para os pagãos eram devidas à possessão do diabo ou feitiçarias, enquanto para os cristãos eram vistas como sinais de purificação e expiação dos pecados. Ao despontar a Idade Moderna, através do Renascimento todas as concepções ideológicas e científicas foram revistas, sendo que com a saúde não ocorreu de forma diferente, o que resultou em grandes e significativos avanços, advindo dessa época a base da ciência médica vigente. Existem atualmente diversas definições para o conceito de saúde. Para a Associação Médica Americana (apud Campos et al., 1987, p. 08), a saúde depende: do funcionamento normal dos tecidos e órgãos do corpo; da compreensão prática dos princípios básicos da maneira saudável de viver; e do ajuste harmônico ao ambiente físico e psicológico; contribuindo tudo isso para uma vida mais rica e mais útil à humanidade.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a saúde é conceituada como "estado de perfeito bem estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade" (apud Campos et al., 1987, p. 08). Além dos citados, existem inúmeros conceitos de saúde. Apesar dessa multiplicidade de definições, a saúde é garantida como um direito à todos pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada em 1948 pela Organização das Nações Unidas. Assim diz o artigo XXV: "Toda pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para assegurar a sua saúde, seu bem estar e o de sua família [...]". Porém, nos moldes atuais do capitalismo neoliberal, "a capitalização da medicina orientou o tratamento da saúde mais para a cura da enfermidade do que para a prevenção, chegando a perverter a ética médica" (LEFF, 2001, p. 310). Visando minimizar esse quadro, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92) incluiu em sua pauta de discussões a questão da saúde. O documento final desse encontro, a Agenda 21, dá ênfase na atenção primária à saúde, sobretudo em áreas rurais, bem como na prevenção antes que na correção e tratamento das doenças e na redução dos riscos para a saúde, derivados da ontaminação e dos perigos ambientais: Os seres humanos constituem o centro das preocupações relacionadas com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva em harmonia com a natureza (Agenda 21, apud LEFF, 2001, p. 313).

Essa concepção abre caminho e mostra a importância de pesquisas interdisciplinares para analisar os efeitos conjuntos das exposições à diferentes riscos ambientais e acerca do contato de populações com substâncias contaminadoras e/ou tóxicas. Nesse âmbito, adiante citaremos uma pesquisa que vem sendo realizada, a qual busca identificar as relações entre a água de consumo e a ocorrência de doenças na população, visando, como nos preceitos da Agenda 21, promover "uma atenção primária à saúde".


A água e o meio ambiente

Ao analisarmos a superfície do Planeta Terra constataremos que a sua constituição é de cerca de 70% de água. Desse total, aproximadamente 97,5% são águas salgadas; ou seja, no máximo 2,5% são doces, as quais estão assim distribuídas: calotas polares (68,9%), aquíferos subterrâneos (29,9%), rios e lagos (0,3%) e outros reservatórios (0,9%). Assim, apenas 1% da água doce do planeta é aproveitável para a humanidade, o que equivale a 0,007% de toda a água da Terra (HIRATA, 2000). Entretanto, embora uma fração muito pequena da água possa ser aproveitada pelo homem, não existe dúvida de que a água se caracteriza como elemento indissociável e vital ao meio ambiente, seja o ambiente natural (geogenético) ou o ambiente antrópico (tecnogenético), de modo que a presença de água é um dos principais elementos para a caracterização dos diversos ambientes terrestres. Conforme Branco (2002, p. 227), o principal papel que a disponibilidade de água desempenha em relação às estruturas e funções dos ambientes - notadamente os ambientes terrestres - diz respeito ao fornecimento da substância em estado líquido para a sobrevivência de plantas e animais.

Dessa forma, torna-se claro que para o desenvolvimento e manutenção dos ecossistemas é necessária a disponibilidade de água. Para o homem não é diferente. Grande parte de nosso corpo é constituída de água, o que nos remete a pensar em dois fatores: quantidade e qualidade da água para abastecimento humano. A seguir, nos deteremos a discutir a qualidade da água como forma de prevenção de doenças e promoção da saúde.


Água e saúde: apontamentos teóricos e o caso de Itambaracá-PR

O homem, assim como ocorre com todos os seres, necessita de água para a manutenção de suas funções vitais. Além do consumo da água para "saciar a sede", a usamos para uma infinidade de tarefas, como a higienização corporal, lavagem de roupas, louças e calçadas, combate a incêndios, produção industrial e transporte de dejetos.

Assim, sobretudo nos dois últimos casos, a água pode se transformar no veículo de toda sorte de impurezas, seja na forma de substâncias tóxicas ou de microorganismos patogênicos.

Como demonstra Branco (2002), ao entrar em contato com o corpo humano interno ou externo, essa água contaminada pela ação tecnogenética pode transmitir-nos uma série de estados mórbidos, o que, obviamente é indesejável.

Visando neutralizar os efeitos nocivos da contaminação das águas, as mesmas passam, ou ao menos deveriam passar, por um processo de eliminação de microorganismos patogênicos, sendo atualmente utilizada em larga escala a filtragem e a cloração antes da distribuição desta água, denominada potável.

Dentre as doenças que são transmitidas pela água contaminada por microorganismos, destacam-se as infecções entéricas, muito graves em regiões onde o saneamento é insuficiente, como áreas do Norte e Nordeste brasileiro, onde essa má qualidade da água de abastecimento se reflete nos elevados índices de mortalidade infantil, uma vez que as crianças são mais susceptíveis às infecções desse tipo. Entretanto, além das contaminações que o homem pode causar à água (contaminações antrópicas ou tecnogenéticas), a água pode apresentar-se contaminada naturalmente (impacto geogenético).

Trata-se de regiões onde existem anomalias geoquímicas, ou seja, pela composição litológica natural, elementos químicos são disponibilizados, sobretudo na água em concentrações elevadas, acima das que o organismo humano necessita, o que pode causar doenças. Nesse caso, citamos, de acordo com Martins Jr e Pinese (2003), a contaminação por Arsênio de uma população rural de Bangladesh, a qual resultou em consequências gravíssimas à saúde. Outro exemplo de anomalia geoquímica resultando em problemas para a saúde da população, é o caso da anomalia multielementar do Norte do Paraná, a qual destacamos a do Flúor em Itambaracá (PINESE et al., 2002).

O município de Itambaracá está localizado na região sul do Brasil, no chamado Norte Pioneiro do Estado do Paraná. Situa-se na região limítrofe entre os estados do Paraná e São Paulo, separados pelo rio Paranapanema. Possui como demais limites divisórios, ao sul o município de Bandeirantes, tendo como divisor o rio das Cinzas; a leste limita-se com Andirá e a oeste, com o município de Santa Mariana. A sede do município está a 402 metros acima do nível do mar, tendo como coordenadas geográficas: latitude 23° 02' 00'' sul e longitude 50° 22' 00'' oeste; distando 110 km de Londrina, principal cidade da região e 462 km da capital, Curitiba (PIRES e PINESE, 2002).

O município obtém sua água para abastecimento público através de mananciais subterrâneos confinados do aquífero Serra Geral e em menor escala, dos mananciais do aquífero livre ou freático, já que esse tipo de recurso hídrico pode ser considerado confiável, de baixo custo e com grande disponibilidade.

Entretanto, estudos recentes demonstraram que o município de Itambaracá se encontra na periferia de uma anomalia hidrogeoquímica multielementar onde se inclui a do Flúor (PINESE et al., 2001 e LICHt et al, 1997). A partir de levantamentos epidemiológicos locais, constatou-se a ocorrência frequente de fluorose dentária grave na população, sobretudo nas crianças de 6 a 17 anos (MORITA et al, 1998).

A circulação das águas subterrâneas locais é condicionada por 7 famílias de fraturas com direções preferenciais E-W (27%), N-S (22%), N35°-50°E (21%), N20°-30°W (10%), N60°-70°E (9%), N40°-60W (8%) e horizontal (3%), onde se constatou relação entre os poços com valores anômalos de Flúor, ou seja, aqueles acima de 0.7 mg/L (máximo recomendado pela Organização Mundial da Saúde - O.M.S. - para países de clima tropical) e as famílias N40°-60W e N-S (PINESE et al., 2002).

Foram realizadas coletas sistemáticas de águas subterrâneas e superficiais da área, as quais após análise química laboratorial demonstraram a existência de quatro valores anômalos quanto a flúor na região. Através de técnicas de processamento digital de imagens, foi elaborado o mapa de tais anomalias, identificando-se três localidades geográficas com concentrações de flúor acima do recomendado pela O.M.S., que é de 0.7 mg/L. Tais localidades são: a sede do município, o distrito de São Joaquim do Pontal e o patrimônio de Raul Marinho.

Os locais identificados com concentrações anômalas de flúor coincidem com as áreas de ocorrência de fluorose dentária, onde os levantamentos epidemiológicos realizados constataram grande número de casos de fluorose dentária grave, o que torna possível a correlação entre a ocorrência das altas concentrações do elemento com os altos índices de manifestação da doença.


Considerações Finais

Como verificado, a questão saúde é bastante complexa, sendo que há discórdia e alterações frequentes até mesmo em suas definições e conceitos. São diversos os fatores que influenciam a saúde, os quais vão desde os patogênicos até os ambientais, passando pelos sociais. Procuramos aqui nos centrar nos de ordem ambiental, sobretudo no que diz respeito à água.

Nesse contexto, destaca-se a relevante contribuição que pode oferecer a Geografia que, através da chamada Geografia Médica (ou da Saúde) há tempos tem trabalhado a relação meio ambiente - saúde, já que desde cedo os epidemiologistas enfocam em suas pesquisas o espaço e o lugar, que são categorias de análise geográfica. Tal contribuição é potencializada quando associa-se à Geografia a Geologia, Geoquímica e outras ciências na busca constante da melhora da saúde coletiva.

Atualmente a Geografia não pode ser considerada como apenas uma ciência auxiliar às ciências da saúde, assumindo papel de maior contribuição, voltando suas ações para o planejamento, sendo grande sua capacidade de identificação e monitoramento de áreas de risco à saúde.

As relações entre ambiente e a corrente alimentar humana são controlados por fatores de ordem geográfica e geológica (litologia e mineralogia das rochas, o tempo, o clima, e etc) e processos geoquímicos relevantes, controladores da transferência dos elementos químicos ao solo, às plantas, à água e aos homens, considerando a passagem "intermediária" pelos animais, sendo que as águas superficiais e subterrâneas representam o mais importante meio de conexão entre a geoquímica das rochas, o solo e a fisiologia humana

Em tais estudos, ganha grande importância a contribuição da Geoquímica, uma vez que os constituintes químicos do meio, sobretudo da água, quando em quantidades anômalas, podem trazer sérios prejuízos à saúde humana e animal. Dessa forma, o conhecimento e a representação cartográfica da distribuição espacial e dos mecanismos de migração dos elementos químicos disponíveis no ambiente, bem como de outras variáveis ambientais e epidemiológicas são fundamentais para as pesquisas em Epidemiologa, em Geologia e em Geografia da Saúde, sendo assim a Geoquímica um instrumento de grande valia para as ações que visem a mitigação dos impactos negativos no ambiente sobre a saúde coletiva.

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